A Tribuna de SantosTatiana Lopes
Do trabalho no campo à refeição, tudo se assemelhou ao cotidiano das fazendas de cafeeiras Chapéu de palha na cabeça, peneira e balaio nas mãos. Devidamente paramentado, o grupo inicia uma caminhada pelo cafezal. Posicionados em frente aos pés de café, os apanhadores, homens e mulheres, seguram delicadamente os ramos e começam a derriça dos frutos maduros. A cena descrita seria comum nas fazendas de café do interior do Estado, mas se torna inusitada por dois componentes: ocorreu ontem pela manhã, uma segunda-feira, em São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo e centro financeiro do País.
E foi protagonizada não por trabalhadores rurais, mas sim por autoridades, produtores, baristas e representantes de entidades ligadas ao setor cafeeiro.No Instituto Biológico, na Vila Mariana, região do Parque do Ibirapuera e a menos de dez minutos da Avenida Paulista, está o maior cafezal urbano do País, com 1.305 pés de café plantados em uma área de 10 mil metros quadrados. Foi nesse cenário bucólico que ocorreu a terceira edição do Sabor da Colheita, festividade que marca de forma simbólica o início da colheita do café no Estado e tem por objetivo divulgar a cultura do grão e sua importância histórica para o País.
Inspirado em uma festa tradicional francesa, que ocorre nos mesmos moldes no centro de Paris, tendo a uva e o vinho como matéria-prima, o evento paulistano foi idealizado por Eduardo Carvalhaes Júnior, um santista apaixonado pelo café. ‘‘Pelo que vemos em Paris, onde existe um evento parecido com esse, há um potencial muito grande de crescimento para que esse local venha a ser uma das grandes vitrines da importância do café para o Brasil’’, destacou Carvalhaes Júnior, que é membro da Câmara Setorial do Café de São Paulo e um dos fundadores da Associação dos Amigos do Museu de Cafés do Brasil.
Esse cafezal do Instituto Biológico representa um grande presente que a comunidade paulistana recebe para divulgar a cultura do café e sua importância econômica e mostrar para a população como é o ciclo produtivo’’, diz Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) e presidente da Câmara Setorial de Café de São Paulo. ‘‘A nossa idéia é trazer as pessoas até aqui. Divulgar a cultura do café para que ela seja conhecida e preservada pela população’’, disse o secretário- adjunto de Estado da Agricultura e Abastecimento, Antônio Júlio Junqueira de Queiroz. Segundo ele, São Paulo é o terceiro maior produtor de café do País e um dos maiores consumidores da bebida. ‘‘O consumo de café no Estado é muito próximo ao de países da Europa’’.
Convidados comem como os bóias-friasApós a colheita simbólica do café, o grupo participou de um almoço em estilo italiano, em uma área anexa ao cafezal. As músicas e comidas típicas foram uma homenagem à parceria entre Brasil e Itália. ‘‘Esses dois países são importantes para o café. O Brasil pela excelência e pela quantidade do café produzido a Itália por inventar o café expresso e o capuccino, que são sinônimos de qualidade no mundo inteiro. Além disso, os imigrantes italianos tiveram papel importante na história do café porque vieram ao Brasil para trabalhar nas lavouras, após o fim da escravidão’’, justificou o chef Sauro Scarabbota, responsável pelo cardápio. O almoço foi preparado por uma equipe de 40 profissionais, entre alunos da faculdade de gastronomia, chefs da Associação Brasileira da Alta Gastronomia (Abag) e profissionais do restaurante Fricco.
Os cerca de 200 convidados puderam apreciar canapés de camarão e de patê de fígado, ambos polvilhados com café, além de uma sopa de pão italiano com café e algumas variedades de vinho. O prato principal, polenta ao molho de tomate, com manjericão, salsinha e abobrinha em pedaços, foi servido em uma quentinha. ‘‘As pessoas irão comer como os bóias-frias comem no campo, com a diferença de que aqui serviremos bóiaquente’’, anunciou o chef, ao microfone, antes de mandar servir o almoço. De sobremesa, um zucotto base de café, com ricota e frutas cristalizadas. E para finalizar, um bom café expresso.